quarta-feira, novembro 23, 2005

Beijo

Ele me deu um beijo na boca e me disse:
A vida é oca como uma touca
de um bebê sem cabeça
E eu ri à beça
e ele: como a toca de raposa bêbada
e eu disse: chega da sua conversa
de poça sem fundo
eu sei que o mundo
é um fluxo sem leito
e é só no oco do seu peito
que corre um rio...

CVMM

segunda-feira, novembro 07, 2005

A espontaneidade da natura naturans e a sociedade

Coletivizo nomadicamente minhas notas de estudos.
Nas últimas semanas tenho "encenado" um certo diálogo entre o Guattari (sobre heterogênese, produção de subjetividade, processos de singularização) e o Negri (sobre o singular, o comum e a multidão).
Na mesma "cena", não exatamente dialogando, mas numa anárquica récita paralela, ecoam as inquietantes profecias caóticas de Hakim Bey.

Em primeiro lugar, o interesse pelas tecnologias metanóicas. O eterno interesse pelos meios, como primeiro passo para se considerar a possibilidade de sua coletivização.
Sim, porque é urgente se "democratizar o xamanismo"!
Se o anarquismo merece algum apreço e consideramos a possibilidade de, tal qual sábios "imperadores", não atrapalhar a espontaneidade da natura naturans, não atrapalhar o Tao, se adotamos, afinal, o Caos e sua "organização orgânica espontânea", então, É PRECISO DEMOCRATIZAR OS MEIOS DE SE DIRIGIR A LUZ DAS ESTRELAS...
Concordo com Hakim Bey: só é concebível anarquismo & xamanismo, conjugadamente.
Não tenho notícia de avanços mais significativos na "democratização do xamanismo" do que aquele propiciado pelas práticas espirituais afro-brasileiras. Não são as únicas, nem as primeiras. (Mesmerismo, hipnose, diversas práticas de psicoterapia corporal, diversas técnicas do transe e do êxtase...) Mas são especialmente nossas, belas e virtuosas.

Em segundo lugar, essa estranha substância do vínculo social: o amor.
Encontro no Caos esta estranha aproximação entre Eros e o comum, a comunicação e a comunidade. Erotismo polimorfo, certamente, mas não por isso purificado de suas formas carnais, donde a "estranheza" das formulações de HB. De novo, nem o único, nem o primeiro (Freud, Simmel, Bataille). Mas contemporâneo e contundente.
Umas das mais vertiginosas linhas de fuga abertas pelo Caos de HB é esse seu "sincretismo muito mais profundo entre anarquia & tantra", entre comunitarismo e erotismo, sobre cujas intensidades ainda não meditei o bastante, ainda não parei de procurar compreender...

Hakim Bey brada essas passagens "eróticas" (sua doutrina do "materialismo espiritual") especialmente quando Negri nos fala do "comum". E mesmo naquela "incomum" noite no Teatro Oficina, Negri também tentou falar no "amor" e, se me lembro bem, moralizou um pouco as coisas, "separando" a idéia de amor romântico ou erótico, por um lado, e o amor piedoso "cristão", por outro, reservando, assim, um terceiro sentido para esse "amor" que dá substância ao vínculo social... Foi isso, não? Veremos! Está tudo gravado...

Por enquanto, meu pensamento vai embora montado na vassoura dessas idéias relacionando a natura naturans e o socius, a espontaneidade e a socialidade...
Em geral, volto dessas viagens de vassoura com alguma pergunta de criança entre os dentes, do tipo: qual, afinal, a relação entre a espontaneidade e vivermos todos juntos?

domingo, novembro 06, 2005

Mônadas nômades

"De fato, simplesmente sugerimos que o Anarquismo Individual & o Monismo Radical sejam, daqui por diante, considerados um único & mesmo movimento.
Este híbrido tem sido chamado de 'materialismo espiritual', um termo que queima toda a metafísica no fogo da unidade entre espírito & matéria. Também gostamos de 'Anarquia Ontológica', porque sugere que o ato de ser permanece num estado de 'Caos divino', de total potencialidade, de criação contínua.
Neste fluxo incessante, apenas o desejo oferece qualquer princípio de ordem, &, portanto, a única sociedade possível (como bem compreendeu Fourier) é aquela formada por amantes
.
"
Hakim Bey, Caos..., p. XCII.

Phalansterio

Houaiss:
falanstério
Datação
1873 cf. DV

Acepções
■ substantivo masculino
1 Rubrica: filosofia, sociologia.
no fourierismo, organização comunitária concebida como uma realização plena da natureza humana, por meio do encontro entre princípios socialistas, como a propriedade coletiva dos meios de produção, e prescrições comportamentais, que incluem a plena liberdade sexual.
2 Derivação: por metonímia.
local onde vive e trabalha essa comunidade; falange.
3 Derivação: sentido figurado.
grupo que vive em comunidade; domínio onde ele vive e trabalha.


Etimologia
fr. phalanstère, de phalan[ge] + [mona]stère (1822) no sistema de Charles Fourier (1772-1837, utopista francês), 'unidade de trabalho que vive em comunidade', p.ext. (1841) 'imóvel que aloja diversas famílias'; ver falang(i/o)- e 2-tério; f.hist. 1873 phalansterio.

Máquina de guerra

Tecnotantra

"A aquisição da linguagem coloca-se sob o signo de Eros - toda comunicação é essencialmente erótica, todas as relações são eróticas. Avicena & Dante declararam que é o amor que move as estrelas & os planetas - tanto o Rig Veda quanto a Teogonia, de Hesíodo, proclamam o Amor como o primeiro deus a nascer depois do Caos. Afeições, afinidades, percepções estéticas, criações de beleza, convívio - todas as mais preciosas posses do Único surgem da conjunção entre o Ser & o Outro na constelação do Desejo.
Novamente, o projeto inciado pelo individualismo pode ser desenvolvido & revigorado com um enxerto de misticismo - especialmente o tantra. Como uma
técnica esotérica distanciada do hinduísmo ortodoxo, o tantra provê um contexto simbólico ('Rede de Jóias') para a identificação do prazer sexual & consciência não ordinária. Todas as seitas antinomianas contiveram alguns aspectos 'tântricos', desde as famílias de Amor & Fraternidade Livres & adamitas da Europa aos sufis pederastas da Pérsia & aos taoístas alquimistas da China. Até mesmo o anarquismo clássico usufruiu seus momemntos tântricos: os falanstérios de Fourier; o 'Anarquismo Místico' de G. Ivanov & outros simbolistas russos do fim do século; o erotismo incestuoso de Sanine, de Arzibashaev; a estranha combinação de niilismo & adoração à deusa Kali que inspirou o Partido Terrorista de Bengala (ao qual meu guru tântrico, Sir Kamanaransan Biswas, teve a honra de pertercer)...
Nós, no entanto, propomos um sincretismo muito mais profundo entre anarquia & tantra do que qualquer um desses exemplos. De fato, simplesmente sugerimos que o Anarquismo Individual & o Monismo Radical sejam, daqui por diante, considerados um único & mesmo movimento.
"
Hakim Bey, Caos..., pp. XCI-XCII.

Tecnumbanda

"O anarquismo necessita afastar-se do materialismo evangélico & do banal cientificismo do século XIX. 'Estados mais elevados de consciência' não são meros FANTASMAS inventados por padres malignos. O Oriente, o oculto, as culturas tribais possuem técnicas que podem ser 'apropriadas' de uma forma anarquista. Sem 'estados mais elevados de consciência', o anarquismo acaba & se resseca num certo tipo de miséria, a reclamação chorosa. Precisamos de um tipo prático de 'anarquismo místico', livre de toda merda New Age & inexoravelmente herético & anticlerical; ávido por todas as novas tecnologias de consciência & metanóia - uma democratização do xamanismo, embriagada & serena."
Hakim Bey, Caos..., p.LXXXV.